Álbum iconográfico da Avenida Paulista

 “... um fragmento do universo em permanente mutação...” – pág. 10

      Embora a percepção de uma imagem se faça de forma extremamente rápida, em cerca de um quarto de segundo, sua análise comporta muitas leituras. Por essa razão, a imagem identificada situada no conjunto é oferecida a leitura evitando-se a retomada de seu conteúdo no texto. A retórica da imagem deve encontrar sua livre expressão, se é licito falar assim.

     Esse respeito pela imagem é um aspecto grave, se lembrarmos que a fotografia está fixando um fragmento do universo em permanente mutação e destinado a ser analisado em outras circunstâncias. O registro obtido comporta diversas abordagens e a hierarquização dos temas é subvertida conforme o observador e objetivo, os circunstantes e conforme o ambiente. Um fragmento da Avenida, tomado para um escritório de arquitetura, pode tornar-se irreconhecível em foto jornalística preocupada em registrar um evento de rua. Já o cartão postal procura eliminar tudo que é episódico, circunstancial enquanto que uma foto da Light procura registrar uma operação assentamento de trilhos, por exemplo, e a Avenida assume aparência "desarrumada. Tudo isso pode ser apenas cenário de fundo na fotografia familiar tomada no jardim.

     Com todas essas nuances, a fotografia tem uma característica registrada par Viollet-le-Duc no seu Dictionnaire maisonné de l'architecture française (1869). A fotografia, escrevia "presente cet avantage de dresser des proces verbaux irrecusables et des documents que l'on peut sens cesse consulter, même lorsque les restaurations masquent des traces laissées par la ruine. Dans les restaurations, on ne saurait donc trop user de la photographie, car bien souvent on decouvre sur une épreuve ce que l'on n'avait aperçu sur le monument lui-même". Não é surpreendente que um arquiteto possuidor de invulgar cultura e que teve sob sua responsabilidade os mais notáveis monumentos da França, declare que uma foto pode conter um registro não percebido na própria obra?

     O cartão postal vem assumindo valor documental imprevisto há décadas: "Aujourd'hui, la carte postale de monument a tendance a se rapprocher de la photographie archeologique". A constatação é de Paul Jay na revista Monuments Historiques. A difusão do cartão postal nas primeiras décadas do século era tal que alguns chamaram esse momento de a era dos cartões postais. Trata-se de um utilíssimo instrumento de trabalho para quem estuda a evolução urbana de São Paulo. Por duas razões: São Paulo não fixa imagem e não foi bem documentada. Poderíamos dizer que alguns setores da cidade, como imagem, foram apagados como desenho em quadro-negro.

   O cartão postal representa uma critica já pela escolha do tema, depois pela preferência do público. Assim, algumas imagens vão se firmando, compondo mesmo um quadro que poderíamos chamar patrimônio ambiental urbano. Haverá sempre alguém para dizer que o cartão cria uma imagem falsa, que tudo nele aparece bem arrumadinho. No entanto, alguns setores da Avenida sobreviveram apenas na imagem de cartões postais. Podemos afirmar com tranqüilidade que o fotógrafo Guilherme Gaensly foi o mais notável de seu tempo no gênero cartão postal. A ele devemos duas excepcionais fotos tomadas da residência de Von Ballow: uma no rumo da Rua da Consolação e outra no rumo Paraiso (100 e 101).

    Devemos acrescentar que realizou essas mesmas fotos em ocasiões diferentes como em 1902 e 1907, o que nos permite assinalar algumas características na evolução urbana da Avenida (comparar 107 com 119). Igualmente, do alto da residência de Pinotti Gamba, na esquina da Avenida Brigadeiro, realizou fotos na direção das duas cabeceiras da Avenida 130 e 31). Esse conjunto de fotos tornaram-se as imagens clássicas da Paulista reproduzidas em quase todas as publicações da época,

   Gaensly realizou posteriormente outras vistas da Avenida. Há um apreciável número delas no acervo da antiga Light & Power, com a anotação: negative belongs to Gaensly. Explica-se o fotógrafo fazia várias fotos de um mesmo local. Algumas serviriam para documentar obras da Light. As demais transformavam-se em cartões postais ou iam para álbuns e livros.

    O Trianon, inaugurado em 1916, foi outro polarizador de imagens dos cartões postais. A vista para a cidade, tomada do belvedere, e assunto que nunca deixou de figurar nos postais ao longo do tempo, de forma a constituir uma útil documentação da evolução do Vale do Saracura e do centro histórico. Os cartões postais registraram, ainda, alguns hábitos, como o do corso (161) realizado na Avenida nos fins de semana. A Avenida Paulista confirma o valor documental que vem adquirindo o cartão postal.

    Da mesma forma, "foto familiar" ainda é um pejorativo em algumas áreas da critica. No entanto, são, por vezes, excelentes documentos urbanísticos. Podem mostrar como as crianças passeavam no Parque com as governantas (74), como os rapazes se empenhavam em competições (77), a família no jardim (115), o intelectual requintado em sua biblioteca (42), a família no alpendre da casa (154). Mostram, enfim, como a Avenida era utilizada.

    Algumas famílias tiveram um comportamento a ser analisados queimaram álbuns, cartas, memórias familiares, por diversas razões. Numa entrevista, uma pessoa revelou que seus avós, após a crise de café, dispensaram os serviçais, alugaram a casa a um comerciante e foram morar nas acomodações dos empregados. As imagens dos bons tempos eram penosas.

    Cada imagem suscita questões: autoria do projeto, proprietário inicial e sucessivos,  inquilinos, localização exata, subdivisão de lotes, correspondência entre as sucessivas numerações, recomposição de lotes, sub-numeração. A Municipalidade mantém reserva quanto à sucessão de proprietários, à correspondência das sucessivas numerações e aos projetos, a partir de 1907. Esse absurdo bloqueio a análise dos projetos cria grandes óbices ao estudo de nossos problemas urbanos. Por essa razão, o nome do proprietário, por exemplo, aparece neste álbum segundo a fonte utilizada.

    Foi realizado um cuidadoso inventário nas listas telefônicas. Como não existia, no periodo pesquisado, lista por endereço, as casas na Paulista - em certa época denominada Carlos de Campos - tiveram que ser procuradas linha por linha. A relação dos assinantes foi reproduzida integralmente em cada setor do álbum.

  Com essas informações, foram realizadas entrevistas com antigos moradores, seus descendentes e pessoas que freqüentavam a Avenida pelas mais diversas motivações: passear no parque, visitar amigos e parentes, dançar no Trianon ou simplesmente passear, nos bancos do bonde 3 Avenida.

    Finalmente, foi feita cuidadosa seleção e ordenamento do material obtido ao longo da pesquisa segundo o projeto inicial: oferecer ao leitor a possibilidade do exercicio da arte do relacionamento.