Álbum iconográfico da Avenida Paulista

TRECHO ENTRE AS RUAS MINAS GERAIS E AUGUSTA - PÁG. 21

     Na Carta da Capital de São Paulo, na verdade um plano de defesa que João Jacques da Costa Ourique -Fortificador da Capital -- realizou em 1842 para o Barão de Caxias, futuro Duque, está assinalado um caminho que, tendo início no Anhangabaú, próximo ao pouso do Bexiga, continua pela subida do Piques, contornando o barranco onde fica e Obelisco da Memória e sobe, passando ao lado da ermida da Consolação. Ourique assinala: "Caminho de Sorocaba, Pinheiros, Anastácio, Água Fria e outros pontos observados.

     Viajantes de fins do século XIX referem-se à ermida como ponto extremo da cidade. Um deles chegou a afirmar "ali termina a cidade". Mas, na verdade, ali começava um dos mais extensos caminhos, que colocavam São Paulo em contacto com a Bacia do Prata.

     Era um caminho de tropeiro, essa figura rústica e de resistencia inimaginável que assegurou, durante séculos, a integração do Pais. Subindo o caminho para Sorocaba, o tropeiro iria cruzar o espigão central da cidade num ponto privilegiado. Se o dia não estivesse coberto pela garoa, esse gigante com poncho e espora chilena poderia ver desse local uma referência, cara a todos caminhantes: 0 Morro do Jaraguá. A seus pés, ficava o vale de um riacho que corria para o Tieté, onde os nativos costumavam caçar. Era o córrego das pacas, o Paca-yembó. Habituado a sobreviver em rudes caminhos, o tropeiro veria surgir as araucárias, que se transformariam em um bosque próximo ao Rio Pinheiros cujo fruto, o pinhão, tanto apreciava. Conforme a estação, encontraria, ainda, araçá e Sumaré.

     Esse é o ponto onde viria a ter inicio a Avenida Paulista. Seus idealizadores criaram ali um mirante.

Paul Walle em 1920 assinalou: "Uma pequena elevação que se acha na extremidade norte-oeste oferece bela perspectiva sobre o resto da cidade". Não havia propriamente uma elevação; o terreno foi apenas nivelado e transformado em belvedere, mas o fato revela a preocupação: uma avenida não é apenas um caminho, é um boulevard, um bol-werk comprometido irremediavelmente com a paisagem.

     Nesse sumario baluarte, alguém teve um dia a idéia de implantar um monumento que homenageasse Olavo Bilac. O Prefeito Firmiano de Morais Pinto procurou tomar todas providencias para que a iniciativa tivesse éxito. O escultor escolhido foi o suico William Zadig. O resultado foi lastimável.

     Além de revelar falta de percepção da paisagem, o monumento não tinha unidade plástica e, pior do que isso, não tinha poesia (página 25). A falta de unidade facilitou o esquartejamento da obra e seus fragmentos foram espalhados pela cidade com a falta de cerimonia com que são tratados os monumentos desta cidade. Do conjunto só restou a imagem do gesto desolado do poeta que ficou a ouvir estrelas.

     Não deve ter sido muito dificil a Mr. Charles W. Armstrong encontrar, numa região com várias chácaras, um terreno suficientemente amplo para abrir uma escola. Assim, em 1903, submete à Prefeitura projeto para edificar The Anglo-Brazilian School ocupando uma quadra inteira entre as ruas Haddock Lobo, Bela Cintra e Elias Fausto (hoje Luis Coelho). A iniciativa foi bem sucedida e em 1905 vemos novamente Mr. Armstrong submetendo projeto destinado a ampliação de suas instalações.

     Contemporaneamente à instalação do colégio, do outro lado da Avenida, o Sr. Nestore Fortunati submete a Prefeitura pedido para construção de um chalet (27), projeto simplório onde as peças são distribuídas sem que se perceba exatamente o critério. O aspecto severo da "frente" 36 é amenizado pelo desenho rendado do gradil do terraço e pelo gracioso Lambrequinado, do qual consta um pormenor à direita, em cima, na planta. O cômodo mais agradável da casa é o terraço fronteiro dando para o jardim e designado, no projeto, incorretamente por varanda. Outras casas desse gênero foram edificadas nessa região, que acabou ficando com aparência do foto da pagina 29.

     Uma varanda autentica ou terraço coberto comparece na residência do Sr. Luis Perroni (39) obra do

tipo "casa térrea com porão alto". Foi Lúcio Costa quem observou que "as varandas, quando bem orientadas, são o melhor lugar que as nossas casas têm para se ficar; e o que é a varanda, afinal, senio uma sala completamente aberta?"

     Nessa residência, a varanda é resolvida com delgadas colunas de ferro e coberta com telhado de vidro, acessível por uma acolhedora escada que se derrama para o jardim. Esta é uma casa da primeira década do século que guarda, ainda, alguma semelhança com o chalet do Sr. Fortunati, em algunscomponentes, como o arremate do frontão principal.

     Merecem particular destaque, neste setor da Avenida, as três casas projetadas por Victor Dubugras para a esquina com a Rua Augusta (35). Se considerarmos a data de sua construção, 1912. Estaremos diante de auténticas construções pioneiras na arquitetura moderna no Brasil. Essas residências integram um conjunto de obras desse arquiteto do qual o mais expressivo exemplar é a Estação de Ferro de Mayrink, datada de 1907. Antecedem de vários anos as manifestações convencionalmente tidas como pioneiras por setores da critica em nosso país.

     Das três casas, a central era a mais imaginosa com seu alpendre coberto por um terraço em forma de lóbulos, sustentado por colunas de ferro. Esse pormenor, se somado ao conjunto de inovações a começar pelo livre jogo de volumes e pela concepção estrutural, torna antológicas essas tres casas no panorama da arquitetura moderna no Brasil.

Em 1921, foi o Escritório Ramos de Azevedo que propós uma casa de tijolo aparente cercada de alpendre e com longos beirais, surpreendente no conjunto de obras desse escritório, mesmo considerando-se grande o número de arquitetos que al trabalhavam (33).

     Bem mais caracteristica do Escritório Ramos de Azevedo é a residência Cardoso de Almeida (37), cuja arquitetura utiliza um repertório de formas que pode ser visto em outras residências na região.

Um pormenor merece registro. É o terraço descoberto e ligeiramente elevado, colocado na esquina, na concordância dos dois alinhamentos onde, por entre os vãos da balaustrada, é visível o mobiliário de ferro. Este terraço era local privilegiado para se apreciar o corso nos fins de semana e vamos encontrar essa solução em diversas outras residências na Avenida.

     As instalações do antigo Colégio Anglo-Brasileiro foram adquiridas pelos jesuitas, quando estes resolveram transferir o Colégio São Luis, de Itu para São Paulo. Houve sensível ampliação do colégio e a construção de uma capela na esquina com a rua Bela Cintra, consagrada em 1934. Por essa época praticamente todos os lotes estavam ocupados. Uma foto tomada de aeroplano, por um amador, em 1935 (31), registra a aparência da Avenida nesse momento.