Álbum iconográfico da Avenida Paulista

"... capricho do amálgama arquitetônico dominante." – pág. 14

      Desde sua abertura, todavia, parece ter ficado evidente que a Avenida estava destinada a receber construções de vulto. O jornalista Lucien Grillet, em 1894, escrevia a propósito da Avenida: "E opinião corrente, e desta não somos mais que 'eco. que num futuro muito próximo os numerosos palacetes que se levam de cada lado desta Avenida formarão um bairro elegantemente aristocrático."

    Nicolau Fanuele, no seu ll Brasile (1910), coloca a Paulista na perspectiva de uma grande renovação urbana: "Hoje São Paulo está completamente transformada; a antiga povoação desapareceu de todo, substituída por outra, magnífica e moderna. A impressão que se recebe ao chegar a São Paulo e estupenda: por toda parte vêem-se ruas arborizadas, passeios, parques, jardins bem conservados, onde as crianças brincam alegremente sob a vigilância de pagens. (...) As ruas são largas e confortáveis, flanqueadas por belas e riquíssimas lojas, com vitrinas magníficas e artísticas. O grande passeio que o citadino mostra, com o mais legítimo orgulho ao forasteiro é a Avenida Paulista, imensa rua com alguns quilômetros de comprimento, situada no ponto mais elevado da cidade, tola arborizada, cercada de casas suntuosas, cuja arquitetura e amamentação nada ficam a dever aos mais belos edifícios europeus." Este último parágrafo poderia servir de legenda para as fotos das páginas 100 e 101.

    Nesse mesmo ano de 1910, visitou São Paulo o francês L. A. Gaffre que, em seu Visions du Brésil editado em 1913. traça alguns paralelos com outras cidades: "Não se pode imaginar nada de mais bem traçado e mais bem arborizado que as ruas da Liberdade e da Consolação, que levam a essa esplêndida Avenida Paulista, a qual eu não saberia comparar senão certas avenidas de Nova York, onde a fantasia dos milionários americanos encerra, no verde das grandes árvores e na policromia dos canteiros dos jardins, seus palácios de elegantes esculturas, como se encaixa e diamante de valor, com múltiplas facetas, nos engastes das esmeraldas e rubis. Citaram-me, por alto, os principais proprietários dessas luxuosas residências. Aqui, um grande nome de velha ceia portuguesa: la um protegido da fortuna, sem mérito, pequeno mercador ambulante há vinte e cinco anos e hoje um grande senhor, em que a Itália reconhecerá facilmente algum descendente desses antigos venezianos ou genoveses que traziam, de suas viagens e do seu comércio, muito ouro inesperado, com o qual produziam muita arte em seu pais e algumas obras de benemerència. É agradável saber que, em nossa época de oportunismo pecuniário, há ainda alguns homens que sabem ao menos dar, ao supérfluo de sua rápida fortuna, um emprego que enobrece suas humildes origens."

    Em 1911. Alfredo Cusano, no seu ltalia d'oltre mare, propunha uma curiosa divisão para a cidade de São Paulo: "Esta pode dividir-se em três partes: os bairros elegantes, os populares e o centro que abriga toda a vida comercial. Com essa premissa, descreve a primeira categoria: "Os bairros elegantes (Higienópolis, Maranhão, Campos Elíseos, Avenida Paulista, Liberdade etc.) são um verdadeiro triunfo da vegetação e das flores. Toda a luxuriante flora tropical é magnificamente combinada com aquelas das zonas temperadas e passa-se por ruas amplas e majestosas, que são autênticas veredas maravilhosas, nas quais se vêem surgir, a breves intervalos, as mais graciosas casinhas, as mais simpáticas vilas, os mais elegantes palacetes, em uma variedade de cores, de linhas e de estilos, que entretanto tem todos um único fundo de tonalidade italiana, dando uma ideia expressiva da fantasia e do capricho do amálgama arquitetônico dominante. Creio que nenhuma cidade do mundo tenha tanto luxo de vegetação, tanta riqueza floral em seu centro urbano e tanta graça arquitetônica nas numerosas vilas, todas orladas de jardins perfumados, que certos bairros de São Paulo."

    No início do século, algumas volumosas publicações, editadas no exterior, davam conta de todas as maravilhas do pais. São, no geral, de uma linha exaltativa capaz de tocar na vaidade do mais indiferente cidadão, cliente potencial de qualquer forma. Mesmo nessa perspectiva é oportuno registrar como aparece a Avenida. Assim, Marie Wright, na edição de 1907 do seu The New Britail, reserva para a Paulista a expressão "magnificent" e mais: "the most beautiful boulevard of the capital".

    Já o portentoso Impressões do Brazil no Século Vinte, editado em Londres em 1913. assim descreve a Avenida: "Entre as avenidas, ruas e praças que mais realçam a beleza da cidade contam-se a magnífica Praça da República, a soberba Avenida Paulista com uma esplendida arborização e ladeada por palacetes e residências de nobre arquitetura a qual todo paulista menciona com justo orgulho (...) Na parte sul, as ruas principais são da Liberdade, Santo Amaro e Consolação, que todas vão ter à soberba Avenida Paulista, a rua nobre da cidade, asfaltada e profusamente arborizada e iluminada."

    Paul Walle, que andou pelo Brasil em 1920, deixou no seu Au Pays de l'Or Rouge, l'État de S. Paulo, editado em 1921: "As grandes ruas da Liberdade, de Santo Amaro, de Santo Antonio e da Consolação dirigem-se para o sul, dando acesso direto à célebre Avenida Paulista, sem contestação a mais bela avenida da capital, muito larga, asfaltada, composta de três pistas e orlada de habitações principescas. Uma pequena elevação que se acha na extremidade norte-oeste oferece bela perspectiva sobre o resto da cidade."

    A estética urbana presidiu a abertura da Avenida Paulista e sempre acompanhou sua vida. Seu eixo foi orientado para o Morro do Jaraguá e em sua extremidade oeste erigiu-se um belvedere sobre o Vale do Pacaembu, com vistas para o Sumaré. A paisagem foi, ainda, contemplada com a abertura de uma esplanada sobre o Vale do Saracura onde se construiu o Trianon. Maior atração: a vista para o centro histórico, origem de todo o fenômeno São Paulo. A vegetação vigorosa do Caaguaçú foi homenageada com a preservação de um seu segmento na forma de um parque. Para organizá-lo foi chamado o paisagista francês Villon e, posteriormente, o urbanista inglês Berry Parker. A Esplanada do Trianon e o Parque da Avenida sempre foram componentes fundamentais do patrimônio ambiental urbano de São Paulo. A arborização integrou a imagem da Paulista desde sua abertura.

    A sequência de residências iniciais constituiu um mostruário da arquitetura fin-de-siecle, às vezes inovadora, às vezes vítima de sobrecarga ornamental. Ao serem construídas, eram "villas" e palacetes, com o tempo foram familiarmente sendo chamados de casarões. No início do século, eram símbolo de ascensão social. Os últimos exemplares foram defendidos pelo povo, nas calçadas, como patrimônio da população