Sim: Diretas Já!

Laerte Moreira dos Santos ("Resistência" e "Articulação dos Grupos")

Temos no coletivo "Resistência" duas posições principais.  A do Márcio Alves e da Edva Aguilar com seus seguidores. Pelo que constato os dois lados dificilmente mudarão seu modo de ver mesmo com um debate intenso. Mas há pessoas como eu que estão atentas aos argumentos das duas posições buscando se definir.

Tentarei resumir as duas posições pedindo desculpas e esclarecimentos se porventura a minha síntese ficar a desejar.

 

1) EDVA E SEGUIDORES: o foco da luta é a   anulação do impeachment com o retorno da Dilma.

Argumentos:

- o Fora Temer é insuficiente. É também é mote da direita. O foco tem que ser: anulação do impeachment com a volta da Dilma.

- o principal motivo da saída da Dilma foi o fato de não ter aceitado o  “a ponte para o futuro”. Foi um ato ilegal, fraudulento, que atentou contra a democracia.

- O que se deve fazer: pressionar o supremo para anular. Nem que não dê em nada é nossa obrigação como cidadão, respeito à democracia.

- porque não enfrentar o supremo? São 11 ministros que são obrigados a respeitar a constituição. O povo tem que ir para as ruas.

- Qual o momento propício para esta pressão? A partir do momento que o mandado de segurança que Dilma impetrou pela anulação do impeachment retorne para as mãos da presidenta Carmen Lucia. Quando retornar ela tem que marcar uma data para julgamento. E ela só vai marcar se houver pressão popular. “Os ministros do Supremo são sensíveis à pressão popular, quando forte e efetiva."

 

2) MARCIO ALVES: a bandeira deve ser "diretas já" mesmo persistindo o “Fora Temer” que não é um fim em si. Mesmo sendo hoje o “Fora Temer” também bandeira de setores da direita, ela nas nossas mãos tem outro significado que desconstrói o uso ideológico por parte de setores da direita.

 

Argumento desta posição:

- A bandeira das “diretas já” é um elemento tático e aglutinador . Esta bandeira favorece o fundamental que é a mobilização popular com criação da nossa própria pauta. A via judicial hoje não é o fundamental.

  

Bem, após esta síntese que pode não estar totalmente condizente com as duas propostas, mas é como eu as entendo, como as avalio?

 

PROPOSTA DA EDVA AGUILAR E SEGUIDORES: Acho que ninguém é contra a anulação do impeachment. Eu também sou a favor. Mas as divergências acontecem quanto à volta da Dilma. O máximo que eu aceitaria seria a volta da Dilma com a proposta de um plebiscito para eleições diretas. Mas acho que não acontecerá a anulação do impeachment. Justifico.

 

Por mais que batamos na tecla de que o golpe foi ilegítimo, fraudulento, que jogou no lixo 54 milhões de votos, o realismo político me diz que a esquerda de forma geral não vê com bons olhos a continuidade de um governo Dilma e não vai se empenhar no “volta Dilma”. Acha que se pautou por uma política econômica recessiva quando indicou o Levy como ministro da fazendo traindo o programa da campanha.

O realismo político também me diz que mesmo admitindo a influência do discurso golpista da mídia oligopolista na cabeça das pessoas e o boicote por parte de um congresso majoritariamente conservador e já golpista desde a primeira hora, a verdade é que a maioria da população não apoiou o governo Dilma e com certeza não concorda com o seu retorno. Portanto, a mobilização popular em torno desta bandeira fica extremamente difícil se não impossível tendo em vista que setores organizados como a CUT e o próprio PT não a vê como opção. Lembro que em conversa recente de membros do resistência e outros coletivos com o Paulo Vanuchi, assessor do Lula, ele mesmo admitiu a rejeição dentro do PT à Dilma.

Disse que já havia o questionamento ao seu governo desde o seu primeiro mandato. Houve até uma pressão para que não concorresse à reeleição e retornasse o Lula como candidato. Porém, nas suas palavras, o Lula sabendo que Dilma pretendia a reeleição, por uma questão ética não se opôs. A gota d’água no segundo mandato que reforçou a visão negativa da Dilma foi a sua opção econômica com o Joaquim Levy à frente como ministro da fazenda. O Paulo Vanuchi disse que Lula se reunia semanalmente com a Dilma e antes da indicação do Levy sugeriu como ministro da fazenda o nome do presidente do Bradesco, o Luiz Carlos Trabuco. Porém o dono do Bradesco não quis abrir mão dele na condução do Banco e a Dilma acabou escolhendo um diretor deste Banco, o Joaquim Levy. Segundo o Paulo Vanuchi esta escolha não agradou o Lula e nem a direção do PT. Não tinha o perfil adequado como o Trabuco para implementar uma política econômica num contexto de crise. Pelo que entendi das palavras do Vanuchi este perfil estava mais ligado à maior confiança do mercado na pessoa do Trabuco do que em uma condução econômica diferente.

Além disso o realismo político também me convence que o STF é participante do golpe e não vai anular o impeachment. Concordo que é sensível a pressão popular mas pelos motivos apresentados acima seria muito difícil senão impossível a mobilização popular. O caminho pois não é pela via jurídica.

 

CONCLUSÃO: Hoje tenho mais tendência em aceitar as propostas do Márcio Alves mesmo sendo filiado ao PT. Mas outras propostas são bem vindas. Possibilitam um debate profícuo que busca o melhor caminho para enfrentar  este golpe. Acho que certezas absolutas não existem em qualquer proposta. Afinal as relações sociais e políticas são extremamente complexas. Mas escolhas devem ser feitas. E uma coisa é certa: só podemos avançar na luta contra o golpe se houver a tão desejada unidade das esquerdas e setores progressistas.