Álbum iconográfico da Avenida Paulista

"Architectos e Engenheiros do Estado de São Paulo” – pág. 18

     O solar do Marqués de Três Rios, situado na Avenida Tiradentes em

frente ao Mosteiro da Lux, no dia 15 de fevereiro de 1894, ouviu de Bemardino de Campos, Presidente do Estado, a proclamação: "Em cumprimento à lei n: 191 de 24 de agosto de 1893, declaro instalada a Escola Politécnica de S.Paulo." A nova escola foi saudada por Cesário Motta Junior como o primeiro estabelecimento de instrução superior fundado pelo Estado de São Paulo, republicano."

     O ensino de arquitetura em S. Paulo iniciava-se naquele solar, realizado no que se convencionou chamar Estilo Império. Era uma bela residência, que já aparece em fotos de Militão Azevedo de 1862, com a regularidade e simetria das construções neo-clássicas, arrematada superiormente por uma platibanda no lugar onde os paulistas estavam habituados a ver longos beirais e com alguns paramentos verticais revestidos de azulejo. No coroamento das pilastras e cunhais, apareciam estatuetas e ânforas. Esse solar destaca-se em foto tomada por Guilherme Gaensly em 1915. quando a Avenida Tiradentes já apresentava seus ares de grande avenida, bem pavimentada e arborizada. Foi um bom inicio.

     A organização do curso de arquitetura foi entregue a Ramos de Azevedo, formado na Bélgica, em 1878. Como professor de arquitetura orientou suas aulas nas moldes do Curso da Universidade de Gand, curso esse consubstanciado nos cinco volumes do tratado de arquitetura de L. Cloquet, arquiteto, engenheiro e professor na referida universidade. Como orientação didática, em suas aulas de Composição Arquitetônica, o mestre Ramos de Azevedo não permitia que seus alunos se afastassem de Vignola. Fazia questão do controle das proporções nos projetos de arquitetura, o que considerava ser a 'geometria do arquiteto. A simetria era, para o mestre, um dogma! Os métodos de Alberti, os sistemas de Philibert Delorme e, nos detalhes, as regras de François Mansard eram constantemente lembradas e exigidas. Na execução dos desenhos arquitetônicos, seu rigor era absoluto quanto à justeza das dimensões em escala, a perfeição do traço e, finalmente, o acabamento a nanquim, de traço  tão fino e preciso que se tinha a impressão de admirar uma gravura em aço. Só era permitido o uso de aquarela em simples aguadas transparentes, monocrómicas (sépia ou siena), cobrindo as sombras próprias e projetadas, executadas de antemão com o rigor de uma épura de geometria descritiva."

      Os primeiros engenheiros-architectos" começaram a se formar na passagem do século. Até então,os jovens estudantes eram obrigados a procurar cursos fora de São Paulo. Era comum, por essa razão, a presença de arquitetos estrangeiros entre os brasileiros, como se constata pelos primeiros pedidos de aprovação de plantas para a Avenida.

     A volumosa obra Impressões do Brasil no século XX, editada em 1913, apresenta-nos um quadro dos engenheiros e arquitetos paulistas. Seria útil ver-se o perfil de alguns dos mais destacados: Augusto Fried nasceu em 1857 em Wurtemberg. Estudou em Stuttgard, Genova e Saint-Etienne. Em 1888 foi para Buenos Aires e em 1896 veio para São Paulo. Carlos Ekman nasceu em 1866 em Estocolmo e formou-se na Escola Politécnica de Copenhague. Trabalhou dois anos em Nova Iorque e em 1895 instalou-se em São Paulo, onde ficou sócio de Augusto Fried. Victor Dubugrax nasceu em Sarthe (França), foi para Buenos Aires, onde estudou arquitetura e se formou em 1890. Em 1891 veio a São Paulo e em 1894 tornou-se professor da Escola Politécnica. Domiziano Rossi nasceu em 1865 em Gênova, onde fez seus estudos. Veio ao Brasil em 1889. Foi colaborador de Ramos de Azevedo. Ricardo Severo nasceu em Lisboa em 1869, diplomou-se no Porto. Veio a São Paulo em 1892 e em 1907 tornou-se sócio de Ramos de Azevedo. Nessa página já aparecem alguns arquitetos formados na Politécnica: Alexandre Albuquerque, Hipólito Pujol, Augusto Toledo.

     Torna-se compreensível, portanto, a impressão europeizante causada por São Paulo em alguns estrangeiros. Georges Clemenceau escreveu: "La ville de Saint Paul est si curieusement française dans certains aspects, qu'au cours de toute une semaine, je ne me souviens pas d'avoir eu le sentiment que j'etais à l'étranger." Já Alfredo Cusano, em 1911, achou que, apesar da variedade, os edifícios "tem todos um único fundo de tonalidade italiana, dando uma idéia expressiva da fantasia e do capricho do amálgama arquitetônico dominante."

     Esse amálgama tem explicação: a época da fundação da Politécnica, a cidade contava com 18.505 casas. Em 1909 esse número ascendia a 30.997. Foi um período em que a cidade recebeu um elevado número de imigrantes, entre os quais muitos construtores e profissionais com diversas qualificações.

Alguns desses imigrantes conheceram o itinerário descrito por Galfre: "pequeno  mercador ambulante ha vinte e cinco anos e hoje grande senhor". Eles acabavam sempre encontrando algum arquiteto ou empreiteiro pura interpretar suas aspirações. O fato foi sempre um motivo de ridicularização por alguns excessos que ocorreram na Avenida, como registrou Zelia Gattai no seu livro Anarquistas, graças a Deus: "Da Praça Olavo Bilac até o Largo do Paraiso era aquele desparrame de ostentação! Palacetes rodeados de parques e jardins, construidos, em geral, de acordo com a nacionalidade do proprietário: os de estilo mourisco, em sua maioria, pertenciam a árabes, claro! Os de varandas de altas colunas. que imitavam os palazzos romanos antigos, denunciavam - logicamente - moradores italianos. Não era, pois, difícil pela fachada da casa, identificar a nacionalidade do dono."

     Na verdade, entre as várias tendencias que a história da arquitetura registra para esse periodo, destaca-se o historicismo, fenômeno caracterizado pelo renascimento ou pela reutilização de um receituário de fórmulas arquitetônicas de outras eras. A par das contradições inerentes a esse anacronismo. há a ocorrência de manifestações de origens diferentes em um mesmo edifício. Essa diversificação, esse ecletismo torna questionável todas as denominações. A Avenida Paulista foi pródiga em exemplos desse conflito. Mas é fundamental registrar, igualmente, que, ao lado dessas manifestações do academismo e transposições que o historicismo inspirava, houve manifestações altamente inovadoras como o art nouveau, contemporâneo as realizações européias, e obras precursoras do modernismo.

     Um traço comum a todas as obras foi a alta qualidade de sua execução. Foi um episódio de grande significado na história da arquitetura paulista.